O papel da psicologia no enfrentamento do câncer e das doenças crônicas
- Joselina Santos

- há 3 dias
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Receber o diagnóstico de câncer ou de uma doença crônica representa, para muitas pessoas, um verdadeiro divisor de águas. A vida passa a ser medida entre o “antes” e o “depois” da notícia. Planos são revistos, prioridades mudam e sentimentos intensos emergem quase ao mesmo tempo.
Medo, tristeza, revolta, negação, insegurança e ansiedade são reações comuns e legítimas. Diante de algo que ameaça a saúde e, muitas vezes, a própria sensação de controle sobre a vida, o impacto emocional é inevitável. É nesse contexto que a psicologia desempenha um papel fundamental: oferecer suporte, escuta qualificada e ferramentas para enfrentar esse processo com mais equilíbrio e recursos internos.
O impacto emocional do diagnóstico
O momento do diagnóstico costuma ser vivido como um choque. Mesmo quando já havia suspeitas, a confirmação pode trazer uma sensação de ruptura. Pensamentos sobre o futuro, preocupações com a família, medo do sofrimento físico e incertezas sobre o tratamento tornam-se frequentes.
Algumas pessoas entram em estado de negação inicialmente, mecanismo de defesa natural que ajuda a mente a absorver gradualmente a informação. Outras experimentam ansiedade intensa, alterações no sono, dificuldade de concentração ou sintomas depressivos.
É importante compreender que não existe uma forma “certa” de reagir. Cada indivíduo carrega sua história, seus recursos emocionais, sua rede de apoio e suas crenças. A psicologia atua justamente respeitando essa singularidade.
O acompanhamento psicológico auxilia o paciente a:
Identificar e validar suas emoções;
Diferenciar medos reais de pensamentos catastróficos;
Desenvolver estratégias para lidar com a ansiedade;
Recuperar gradualmente a sensação de controle sobre o que é possível controlar;
Construir formas mais adaptativas de enfrentamento.
Quando o corpo adoece, a identidade também é afetada
Doenças crônicas e tratamentos oncológicos frequentemente provocam mudanças físicas importantes: perda de cabelo, alterações de peso, cicatrizes, limitações funcionais e fadiga persistente. Essas transformações podem impactar profundamente a autoestima e a autoimagem.
Muitos pacientes relatam sentir que “não são mais os mesmos”. Há uma reconstrução da própria identidade em curso. A pessoa que antes era ativa, independente ou produtiva pode passar a lidar com restrições e depender de ajuda.
Nesse processo, o apoio psicológico é essencial para ajudar o paciente a:
Elaborar o luto pelas perdas (mesmo que temporárias);
Reorganizar sua identidade para além da doença;
Reconhecer suas forças e capacidades preservadas;
Trabalhar a autocompaixão diante das limitações.
A doença não define quem a pessoa é mas pode, sim, transformar a forma como ela se percebe. O espaço terapêutico permite integrar essa nova realidade de maneira menos dolorosa.
O medo do futuro e a ansiedade constante
A incerteza é um dos aspectos mais desafiadores no enfrentamento do câncer e das doenças crônicas. Perguntas como “E se não der certo?”, “E se a doença voltar?”, “Como será minha vida daqui para frente?” podem se tornar recorrentes.
A mente humana tende a buscar previsibilidade. Quando ela não existe, a ansiedade aumenta. A psicologia trabalha estratégias que ajudam o paciente a permanecer no presente, reduzindo a antecipação constante de cenários negativos.
Técnicas de regulação emocional, reestruturação de pensamentos, práticas de atenção plena e fortalecimento de rede de apoio são recursos que podem trazer mais estabilidade emocional durante o tratamento.
Não se trata de negar os riscos ou criar falsas expectativas, mas de aprender a conviver com a incerteza de forma mais saudável.
A importância da rede de apoio
O suporte familiar e social tem impacto direto na forma como o paciente enfrenta a doença. Sentir-se acolhido, compreendido e amparado contribui para maior adesão ao tratamento e melhor qualidade de vida.
Entretanto, nem sempre a família sabe como agir. Muitas vezes, por medo ou desconhecimento, evitam conversar sobre o assunto ou tentam manter uma postura excessivamente otimista, o que pode invalidar o sofrimento do paciente.
A psicologia pode atuar também junto aos familiares, auxiliando na comunicação, no manejo das emoções e na construção de um apoio mais efetivo. Falar sobre a doença não significa perder a esperança significa fortalecer vínculos e criar um espaço de autenticidade.

O cuidador também precisa de cuidado
Em casos de doenças crônicas progressivas, como o Alzheimer, ou em tratamentos prolongados, o papel do cuidador pode se tornar extremamente exigente. Sobrecarga física, desgaste emocional e sensação de isolamento são frequentes.
Muitos cuidadores negligenciam a própria saúde mental por acreditarem que precisam ser fortes o tempo todo. Porém, para cuidar bem de alguém, é necessário também estar cuidado.
O acompanhamento psicológico oferece suporte para:
Lidar com sentimentos ambivalentes (amor, cansaço, culpa);
Prevenir esgotamento emocional;
Desenvolver estratégias de autocuidado;
Trabalhar o chamado “luto antecipatório”, especialmente em doenças degenerativas.
Psicologia como parte do cuidado integral
A saúde não é apenas ausência de doença. Ela envolve bem-estar físico, emocional e social. Por isso, o acompanhamento psicológico não deve ser visto como algo secundário, mas como parte integrante do tratamento.
Diversos estudos indicam que pacientes que recebem suporte emocional adequado apresentam:
Melhor adesão ao tratamento;
Redução de sintomas de ansiedade e depressão;
Melhor qualidade de vida;
Maior capacidade de enfrentamento.
Cuidar da saúde mental não altera o diagnóstico, mas transforma a forma como ele é vivido.
Um olhar mais humano sobre o adoecimento
Durante campanhas como o Fevereiro Laranja e Roxo, reforçamos a importância da conscientização sobre doenças como leucemia, lúpus, fibromialgia e Alzheimer. Mas também é fundamental lembrar que por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa com medos, sonhos, vínculos e histórias.
O adoecimento pode ser uma experiência extremamente dolorosa, mas não precisa ser enfrentado em solidão emocional. Buscar apoio psicológico é um gesto de coragem e responsabilidade consigo mesmo.
Permitir-se falar sobre o que sente, reconhecer fragilidades e aceitar ajuda são passos importantes na construção de um enfrentamento mais saudável e humano.



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