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O papel da psicologia no enfrentamento do câncer e das doenças crônicas

  • Foto do escritor: Joselina Santos
    Joselina Santos
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura
A contribuição da psicologia no cuidado integral ao paciente
A contribuição da psicologia no cuidado integral ao paciente

Receber o diagnóstico de câncer ou de uma doença crônica representa, para muitas pessoas, um verdadeiro divisor de águas. A vida passa a ser medida entre o “antes” e o “depois” da notícia. Planos são revistos, prioridades mudam e sentimentos intensos emergem quase ao mesmo tempo.


Medo, tristeza, revolta, negação, insegurança e ansiedade são reações comuns e legítimas. Diante de algo que ameaça a saúde e, muitas vezes, a própria sensação de controle sobre a vida, o impacto emocional é inevitável. É nesse contexto que a psicologia desempenha um papel fundamental: oferecer suporte, escuta qualificada e ferramentas para enfrentar esse processo com mais equilíbrio e recursos internos.


O impacto emocional do diagnóstico


O momento do diagnóstico costuma ser vivido como um choque. Mesmo quando já havia suspeitas, a confirmação pode trazer uma sensação de ruptura. Pensamentos sobre o futuro, preocupações com a família, medo do sofrimento físico e incertezas sobre o tratamento tornam-se frequentes.


Algumas pessoas entram em estado de negação inicialmente, mecanismo de defesa natural que ajuda a mente a absorver gradualmente a informação. Outras experimentam ansiedade intensa, alterações no sono, dificuldade de concentração ou sintomas depressivos.


É importante compreender que não existe uma forma “certa” de reagir. Cada indivíduo carrega sua história, seus recursos emocionais, sua rede de apoio e suas crenças. A psicologia atua justamente respeitando essa singularidade.


O acompanhamento psicológico auxilia o paciente a:


  • Identificar e validar suas emoções;

  • Diferenciar medos reais de pensamentos catastróficos;

  • Desenvolver estratégias para lidar com a ansiedade;

  • Recuperar gradualmente a sensação de controle sobre o que é possível controlar;

  • Construir formas mais adaptativas de enfrentamento.


Quando o corpo adoece, a identidade também é afetada


Doenças crônicas e tratamentos oncológicos frequentemente provocam mudanças físicas importantes: perda de cabelo, alterações de peso, cicatrizes, limitações funcionais e fadiga persistente. Essas transformações podem impactar profundamente a autoestima e a autoimagem.


Muitos pacientes relatam sentir que “não são mais os mesmos”. Há uma reconstrução da própria identidade em curso. A pessoa que antes era ativa, independente ou produtiva pode passar a lidar com restrições e depender de ajuda.


Nesse processo, o apoio psicológico é essencial para ajudar o paciente a:

  • Elaborar o luto pelas perdas (mesmo que temporárias);

  • Reorganizar sua identidade para além da doença;

  • Reconhecer suas forças e capacidades preservadas;

  • Trabalhar a autocompaixão diante das limitações.


A doença não define quem a pessoa é mas pode, sim, transformar a forma como ela se percebe. O espaço terapêutico permite integrar essa nova realidade de maneira menos dolorosa.


O medo do futuro e a ansiedade constante


A incerteza é um dos aspectos mais desafiadores no enfrentamento do câncer e das doenças crônicas. Perguntas como “E se não der certo?”, “E se a doença voltar?”, “Como será minha vida daqui para frente?” podem se tornar recorrentes.


A mente humana tende a buscar previsibilidade. Quando ela não existe, a ansiedade aumenta. A psicologia trabalha estratégias que ajudam o paciente a permanecer no presente, reduzindo a antecipação constante de cenários negativos.


Técnicas de regulação emocional, reestruturação de pensamentos, práticas de atenção plena e fortalecimento de rede de apoio são recursos que podem trazer mais estabilidade emocional durante o tratamento.

Não se trata de negar os riscos ou criar falsas expectativas, mas de aprender a conviver com a incerteza de forma mais saudável.


A importância da rede de apoio


O suporte familiar e social tem impacto direto na forma como o paciente enfrenta a doença. Sentir-se acolhido, compreendido e amparado contribui para maior adesão ao tratamento e melhor qualidade de vida.

Entretanto, nem sempre a família sabe como agir. Muitas vezes, por medo ou desconhecimento, evitam conversar sobre o assunto ou tentam manter uma postura excessivamente otimista, o que pode invalidar o sofrimento do paciente.


A psicologia pode atuar também junto aos familiares, auxiliando na comunicação, no manejo das emoções e na construção de um apoio mais efetivo. Falar sobre a doença não significa perder a esperança significa fortalecer vínculos e criar um espaço de autenticidade.



O cuidador também precisa de cuidado


Em casos de doenças crônicas progressivas, como o Alzheimer, ou em tratamentos prolongados, o papel do cuidador pode se tornar extremamente exigente. Sobrecarga física, desgaste emocional e sensação de isolamento são frequentes.


Muitos cuidadores negligenciam a própria saúde mental por acreditarem que precisam ser fortes o tempo todo. Porém, para cuidar bem de alguém, é necessário também estar cuidado.


O acompanhamento psicológico oferece suporte para:


  • Lidar com sentimentos ambivalentes (amor, cansaço, culpa);

  • Prevenir esgotamento emocional;

  • Desenvolver estratégias de autocuidado;

  • Trabalhar o chamado “luto antecipatório”, especialmente em doenças degenerativas.


Psicologia como parte do cuidado integral


A saúde não é apenas ausência de doença. Ela envolve bem-estar físico, emocional e social. Por isso, o acompanhamento psicológico não deve ser visto como algo secundário, mas como parte integrante do tratamento.

Diversos estudos indicam que pacientes que recebem suporte emocional adequado apresentam:


  • Melhor adesão ao tratamento;

  • Redução de sintomas de ansiedade e depressão;

  • Melhor qualidade de vida;

  • Maior capacidade de enfrentamento.


Cuidar da saúde mental não altera o diagnóstico, mas transforma a forma como ele é vivido.


Um olhar mais humano sobre o adoecimento


Durante campanhas como o Fevereiro Laranja e Roxo, reforçamos a importância da conscientização sobre doenças como leucemia, lúpus, fibromialgia e Alzheimer. Mas também é fundamental lembrar que por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa com medos, sonhos, vínculos e histórias.


O adoecimento pode ser uma experiência extremamente dolorosa, mas não precisa ser enfrentado em solidão emocional. Buscar apoio psicológico é um gesto de coragem e responsabilidade consigo mesmo.


Permitir-se falar sobre o que sente, reconhecer fragilidades e aceitar ajuda são passos importantes na construção de um enfrentamento mais saudável e humano.

 
 
 

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